Veganismo, como começar?

Todo mundo sabe como a indústria alimentícia é cruel com os animais, por isso milhares de pessoas estão mudando seus hábitos e deixando de comer carne. Tem aqueles que não cortaram somente a carne, mas também qualquer derivado animal, os veganos. E tem os que cortaram apenas a carne e qualquer alimento que resulte da morte animal, mas comem derivados, são os ovolactovegetarianos. Ainda tem aqueles que querem entrar nessa, mas ainda não sabem por onde começar, afinal comer carne não é uma necessidade, é uma questão cultural e cortar esse hábito pode ser bem mais difícil do que parece. Por isso conversamos com três pessoas que deram altas dicas para ajudar a quem quer dar o primeiro passo. Duas são recém-chegadas nessa nova vida, uma simplesmente nunca comeu carne na vida. E antes que façam a pergunta clássica, “como elas substituem a proteína da carne?”, aí vai a resposta: sementes, grãos integrais, leguminosas, cogumelos, legumes, verduras, etc…a lista é bem vasta.

Clarissa Waldeck tem 30 anos, é empresária e está há 1 ano e 8 meses sem carne. De família gaúcha, ela

Clarissa Waldeck não come carne há quase 2 anos e garante que não irá comer novamente (Foto: Arquivo pessoal)
Clarissa Waldeck não come carne há quase 2 anos e garante que não irá comer novamente (Foto: Arquivo pessoal)

sempre comeu muita carne vermelha, mas depois de um problema de saúde começou a pensar de uma forma diferente sobre o assunto: “Aos 25 anos precisei retirar a vesícula, e com isso perdi grande parte da minha habilidade de digerir gorduras. Desde a cirurgia comecei a passar mal depois de comer, ter azia, dor no estômago…etc. Mas como todo bom carnívoro, nunca imaginei a relação entre as duas coisas e fui levando a vida assim mesmo”. Tudo começou a fazer mais sentido quando a Cla conheceu uma fazenda de gado durante um Reveillon, “Conheci a fazenda da família de uma amiga. Lá, comi pela primeira vez uma carne fresca de verdade, que tem cheiro, sabor e aparência bastante diferentes da carne que compramos no mercado. Descobri que a carne que compramos no mercado muitas vezes já está morta há anos. Fiquei com isso na cabeça e no decorrer de 2014 comecei a refletir de fato sobre muitas coisas na minha vida; eu estava começando a trabalhar com comida, e passei a me importar mais com a relevância dela na minha vida. A indústria da carne sempre me deu arrepios, visto que sempre fui muito inclinada à amar os animais, mas eu nunca havia de fato refletido sobre o meu papel nisso tudo. Neste ano de 2014, eu comecei de fato a pensar nisso, com muita frequência. Como se algo dentro de mim tivesse despertado.”

Eco: “Como você deu o primeiro passo?”
Cla: “Comecei a ler muito sobre o assunto, busquei me informar mais. Além da inexplicável crueldade, a indústria da carne também causa um terrível impacto ambiental no nosso planeta, e eu comecei a me preocupar com essas coisas. De repente não era só mais um bife; era toda uma questão complexa na minha cabeça cada vez que ele aparecia na minha frente. Então de uma hora para outra simplesmente parei.

Eco: “Como é a sua rotina morando com alguém que come carne e trabalhando em restaurante?” 
Cla: “Meu namorado come carne. Sempre temos em casa um prato pra ele e um pra mim. A variedade melhorou muito depois que parei de comer carne. Temos mais salada, frutas, legumes e sementes em casa. Ele mesmo acaba comendo melhor também. No restaurante, comecei a trabalhar com pratos vegetarianos, que são extremamente saborosos. Vi que era possível cozinhar comida realmente gostosa sem carne, e isso me deu ainda mais coragem para tirar a carne da minha vida.

Eco: “Você sente falta de comer alguma coisa?”

Cla: “Não.”

Eco: “Qual conselho você daria para alguém que esteja querendo parar de comer carne, qual o primeiro passo?”

Cla: “O primeiro passo eu diria que é você definir o PORQUÊ da sua decisão. E deixar que este motivo te guie, te oriente. Eu parei de comer carne porque não queria mais ser conivente com coisas que eu desaprovo. Se eu não concordo com a forma como os animais são explorados na nossa sociedade, não posso simplesmente continuar comendo carne e fingir que não sou parte do problema. De quebra eu parei de passar mal de indigestão depois de comer, então não tem mesmo porque eu voltar atrás. Não sinto a menor falta. Muito pelo contrário, inclusive. Me sinto em paz.

Renata Nóbrega é estudante de Nutrição Formal, Real Física e Espiritual e dona da marca de healthy

Sem carne há 1 ano e meio, Renata Nóbrega mudou de vida ao parar de comer carne (Foto: Arquivo pessoal)
Sem carne há 1 ano e meio, Renata Nóbrega mudou de vida ao parar de comer carne (Foto: Arquivo pessoal)

food, Doce Flor. Ela está há 1 ano e 6 meses sem carne e conta que a causa animal foi o principal motivo para tirar de vez a carne de sua vida: “Depois que comecei a estudar e descobrir o lado escuro de nossa alimentação, fiquei horrorizada e indignada ao saber o quanto os animais sofrem para chegarem ao prato. Não só através do abate, mas também através da extração de leite, por exemplo, em que vacas são levadas à exaustão com máquinas sugando seu leite incansavelmente. Comecei a ver os animais como nós, seres que sentem tudo! E sentem tantas coisas ruins durante uma vida enclausurada até a hora do abate, que gera uma energia terrível nessa carne para consumir. Tratamos cachorros e gatos com tanto amor, por que porcos, vacas e galinhas não merecem o mesmo cuidado? Sem falar no impacto ambiental. Sabendo de tanta coisa e pensado dessa forma, não pude continuar compactuando com a cultura da carne e resolvi abolir de vez da minha vida.”

Eco: “Como você deu o primeiro passo?”

Rê: “Fiquei 1 ano tentando parar de vez, não foi tão fácil porque ainda não conhecia alternativas e ao comer fora de casa sempre acabava consumindo algum tipo de carne em pizzas e hambúrgueres principalmente. Não parei de estudar sobre o assunto nem um minuto e cada vez ficava mais tempo sem consumir, até que a hora chegou. Participei do “Desafio 21 dias sem carne” (segundo especialistas, 21 dias é o tempo médio que levamos para adquirir um hábito), recebia e-mails com dicas de pratos alternativos e pesquisei muito sobre nutrição sem derivados animais. A partir disso, consegui finalmente parar.”

Eco: “Como é a sua rotina morando com pessoas que comem carne?”

Rê: “É preciso muita força de vontade e compreensão dos familiares também. Tenho uma dispensa separada, faço comidas e pastas que deixo separadas na geladeira e hambúrgueres que congelo, é preciso que os outros entendam e respeitem.”

Eco: “Você sente falta de comer alguma coisa?”

Rê: “Doces. Ainda não sou 100% vegana por causa dos doces, mas evito ao máximo os derivados animais. Acabo consumindo derivados do leite indiretamente e raramente quando estou na rua ou em alguma viagem através de doces. Por isso, também, transformei a Doce Flor (minha empresa de gastronomia independente), em vegana e na linha da healthy food – até porque os vilões da nutrição perfeita não são só derivados animais, mas também refinados como açúcar, farinha de trigo e sal. Assim vivo muito melhor do que antes, criando e aprendendo a substituir doces maléficos (e muito gostosos) por doces benéficos e MUITO GOSTOSOS TAMBÉM. A cada experiência é uma surpresa ao ver quantos sabores temos que são mascarados pela quantidade exagerada de açúcar nos doces comuns.

Eco: “Qual conselho você daria para alguém que esteja querendo parar de comer carne, qual o primeiro passo?”

Rê: “Primeiro é preciso muita força de vontade para conquistar o que quer em tempos de industrialização alimentar, que nos tentam o tempo todo pela praticidade e sabores que viciam nosso paladar. Depois dessa força interior para transformar sua vida, você deve buscar conhecimento. Assista palestras, faça cursos, leia sites confiáveis, aprenda receitas, tente o desafio dos 21 dias. Através disso, você vai atraindo naturalmente pessoas que estão no mesmo caminho que você e poderá trocar muito com elas. Comece a refletir: o que seus hábitos geram para o mundo e para o próximo? E para você mesmo?”
Thayaná Nobre é estudante, tem 28 anos e nunca comeu carne. Isso mesmo: nunca comeu carne!”Minha

mãe me criou sem carne, natureba. Como os derivados, mas não como a carne, só de pensar sinto nojo, pra

Thay Nobre nunca comeu carne na vida e não sente a menor vontade (Foto: Arquivo pessoal)
Thay Nobre nunca comeu carne na vida e não sente a menor vontade (Foto: Arquivo pessoal)

mim é um cadáver no prato. Automaticamente fico imaginando o animal vivo e todo sofrimento que ele provavelmente passou”, diz a estudante de RH. Como a Thay nunca comeu carne, não sente falta: “Agradeço todos os dias pela cultura sem carne que minha mãe me ensinou. Graças a ela pra mim acaba sendo mais fácil resistir às tentações e mesmo morando com meu namorado, que é super carnívoro, não sofro por isso. Ele respeita muito minha opção e muitas vezes até me acompanha nas minhas refeições ovolactovegetarianas (sorte a minha…rs)”.

Eco: “Qual conselho você daria para alguém que esteja querendo parar de comer carne, qual o primeiro passo?”

Thay: “Sempre que me perguntam como começar, digo pra pessoa ir com calma. Não adianta querer parar de comer carne hoje e achar que nunca mais vai sentir falta. Pra mim foi diferente, porque desde criança minha mãe me ensinou a respeitar os animais ao ponto de não matar para comê-los, mas comer carne é cultural. As pessoas acham que podem morrer se não comerem. É uma mudança de hábito só sua e você precisa ter consciência disso. Não adianta cobrar que as pessoas próximas não comam também para facilitar sua mudança, porque isso não vai acontecer. Então ir com calma, no seu tempo, pode ser o meu melhor conselho. Talvez parar de comer carne uma ou duas vezes na semana pode facilitar o processo e aos poucos aumentar essa periodicidade. Também acho muito importante estudar sobre o assunto, aprender receitas gostosas pra estimular o paladar, além de procurar um profissional, um Nutricionista especializado, para ajudar no início e não prejudicar sua saúde.”

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